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Pandemia vira tema único nas sessões de terapia

Dúvidas sobre como conduzir o dia a dia em isolamento dentro de casa. Medo de ir parar no hospital. Receio de dar trabalho para os filhos. Preocupações com a solidão.

Esses foram alguns dos assuntos que surgiram ao longo das sessões de terapia da psicóloga Dorli Kamkhagi, que coordena no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) um grupo de atendimento psicológico gratuito para idosos durante a pandemia.

Os pacientes de Dorli não são os únicos a lidar com essas questões: a pandemia invadiu as sessões de terapia como um todo. Psicólogos e psiquiatras em geral relatam que a pauta aparece de alguma forma em quase todos os atendimentos.

Nos últimos meses, a psicóloga Heloísa Caiuby tem atendido tanto pacientes antigos, de antes da pandemia, quanto novos. “No primeiro caso, percebo que há uma exacerbação das questões que eles já tinham, enquanto alguns pacientes novos só falam sobre as consequências da pandemia. Mas a covid-19 foi mencionada de alguma forma por todos eles nas sessões”, afirma Heloísa, que atende na startup de terapia online Vittude - o número de pacientes da plataforma saltou de 22 mil para 110 mil entre fevereiro e abril. “Há muita insegurança em relação ao futuro, medo de ser infectado, preocupação quase obsessiva com cuidados contra a doença e preocupação com as crianças dentro de casa, entre outros assuntos”, pontua a psicóloga.

Por mais que haja um grande tema recorrente, isso não significa que as sessões estão sendo parecidas. “Os sujeitos continuam singulares, complexos e lidando com as situações da maneira que lhes é própria e a partir de suas ferramentas subjetivas”, explica a psicanalista Fernanda de Sousa e Castro Noya Pinto, doutora pela USP. “Cada um de nós tem uma lente singular para enxergar e agir no mundo, tanto em relação à pandemia quanto ao isolamento, quiçá em relação à vida.” Além disso, claro, há o fato de as pessoas sofrerem o impacto da pandemia de forma diferente: a realidade de um médico na linha de frente de atendimento do coronavírus não é a mesma de alguém que está angustiado com o isolamento.

Preocupação com a família.

Diferentemente de muita gente, a aposentada Thereza de Jesus Vanetin Moreira, de 79 anos, não sente tanto medo de ser contaminada. “Me preocupo mais com a minha família. Tenho uma neta que está em Angola e não consegue voltar. Isso me tira o sono à noite”, diz ela, que fez sessões de terapia no atendimento do Instituto de Psiquiatria da USP. Outra grande questão que Thereza levou para a psicóloga foi o fato de ter mudado para a casa da filha durante a pandemia para não ficar totalmente sozinha, sem cuidados: “No começo me sentia como uma estranha aqui, gostava de ter meu espaço. Agora estou tentando me encontrar”, conta.

Sérgio Henrique de Oliveira, de 73 anos, outro idoso que foi atendido pelo programa da USP, sente falta da realidade pré-pandemia: “Adoro ir a restaurantes, cinemas e teatros, e também sou apaixonado por futebol. Estou sentindo muita falta dessas coisas nesse isolamento. Falei bastante na terapia de ausência de perspectiva, de não ter nem ideia de quando poderei ir a um show novamente”, desabafa. O grupo de atendimento da USP já atendeu 68 pessoas desde março, realizando cerca de três sessões com cada paciente por meio de chamadas de vídeo por WhatsApp.

Em evidência.

Além das aflições próprias da pandemia, especialistas afirmam que o momento também tende a trazer à tona questões profundas de cada um. “Nós vivemos mergulhados na vida prática, como se o mundo tivesse uma engrenagem lógica. A pandemia mostra que isso é algo frágil, que não temos esse controle, e deixa à flor da pele grandes questões individuais, como insegurança e necessidade de amor”, diz Mario Eduardo Pereira, psiquiatra e psicanalista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

No caso do empresário Marcio Canavarro, de 45 anos, a pandemia fez com que aflorassem alguns problemas familiares. “Eram questões que estavam sendo empurradas para debaixo do tapete. Vejo que muitas vezes a situação do vírus acaba sendo um catalisador de preocupações antigas que a gente já tinha”, diz Canavarro, que está discutindo esse assunto em terapia, além de outras questões como a dificuldade em seu negócio na área de hotelaria.

Para quem está isolado em casa, a convivência tem sido uma constante nas sessões, explica o psiquiatra Caio Antero Pinheiro, da rede Cia. da Consulta. “As relações dentro de casa acabam se intensificando e isso muitas vezes gera atritos. Fica mais difícil ignorar picuinhas do dia a dia”, diz. Foi por conta disso que Eduardo Carvalhaes, de 34 anos, resolveu começar a fazer terapia na quarentena: ele é casado há dois anos e nunca teve esse convívio contínuo com a mulher. “Sinto necessidade de ter um tempo meu, de entender as minhas emoções. Eu já entendia a importância de fazer terapia, mas com a pandemia eu tive de começar. Não teve jeito: ou eu fazia terapia ou meu casamento ia para o espaço”, conta o profissional de tecnologia da informação que está trabalhando em esquema de home office.

Com tantas questões, os profissionais de saúde mental estão sendo desafiados em seus trabalhos: “Estamos lidando com um mundo que está em rebuliço e precisamos ter resiliência para acolher a dor do outro. Os psicólogos também precisam descansar em alguns momentos para ter força para isso”, diz Dorli. Do outro lado da tela, os pacientes reconhecem o esforço: “A terapia neste momento foi uma experiência ótima. O que mais a gente precisa atualmente é falar e ser ouvido”, diz o idoso Sérgio Oliveira.

(Texto: Reprodução do Jornal O Estado de São Paulo)

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