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Se os adultos conseguirem segurar a ansiedade, o momento pode ser bom para as crianças

Meme retratando a quarentena com crianças é o que não falta, e a gente, que está nessa situação, ri de nervoso.

Em um deles, uma sequência com 12 fotos de Carminha, a vilã de Adriana Esteves em Avenida Brasil, vai mostrando a evolução da expressão da personagem, e de muita mãe no isolamento: a satisfação de acordar e já ter o dia planejado, a leitura da primeira notícia, a vista da pia cheia de louça, uma peça de Lego no meio do caminho, a descoberta de comida pronta congelada no freezer, uma nova atividade que chega da escola, o filho que tosse, o chilique e a ameaça de ir embora, a sobrevivência de mais um dia.

Em outro, chamado Bingo da Culpa Materna, há itens como: Netflix ligada o dia inteiro, não fez nenhuma das atividades lúdicas propostas, já fingiu não escutar a criança chorando, a criança está com a mesma roupa há dois dias, pizza de jantar, brigadeiro de lanche, a criança foi dormir sem banho, deu o celular por 10 minutos de paz, a criança já está aprendendo a falar palavrão, deu pelo menos um grito por dia.

Atire a primeira pedra quem ainda não deu - ou teve vontade de dar - um grito nesta quarentena. Adultos e crianças estão saturados, e é natural que seja assim, diz o pediatra Daniel Becker. Isso tudo é ruim e desgastante, mas também pode ter um lado bom, ele completa.

“Os adultos estão demonstrando sintomas como ansiedade, depressão e medo, que explodem justamente entre si em conflitos, e também explodem com as crianças, em brigas. Elas absorvem essa ansiedade dos pais e o clima reinante e podem expressar sintomas comportamentais”, explica Becker. No entanto, não vão chegar e dizer: estou ansioso, estou com medo. A expressão de suas emoções é por meio de comportamentos inadequados para chamar a atenção e desafiar os pais. “Vão ficar nos solicitando o tempo todo, vão ter crise de birra, de irritabilidade, vão ficar hiperativos, rebeldes, indomáveis, ter insônia, vão comer de mais ou de menos”, diz.

Emoções são sempre válidas.

Todo mundo está à flor da pele, mas é importante não perder de vista quem é o adulto da história. “Temos de nos lembrar disso e acolher essas emoções, sempre legitimando e validando o que elas estão sentindo dizendo: ‘você está com medo’, ‘entendo que você está chateado, ansioso, triste, zangado’”, afirma Becker. “Nomeie as emoções, deixe a criança entrar em contato com o que está sentindo e saber o nome desse sentimento. Tente controlar e repreender as ações erradas, não as emoções - elas são sempre válidas. Diga: Você está com raiva, mas não pode jogar o celular da mamãe no chão. Está zangado e triste, mas não pode bater no papai. Você não pode se jogar no chão, porque a mamãe fica zangada também. ”

Essa é a parte difícil mas, como diz o pediatra, esse confinamento tem dois lados. “Em contraponto a esse convívio forçado, que é extremamente cansativo e doloroso porque não temos mais vidas individuais, não vemos mais nossos amigos, não conseguimos trabalhar direito, não temos a liberdade que tínhamos para ir ao cinema, sair de casa, andar na praia, no parque, e também em contraponto ao fato de estarmos cheios de ansiedade e de medo, para as crianças isso quer dizer que elas estão convivendo com os pais pela primeira vez em muito tempo, em muitos casos, e construindo memórias afetivas.”

Estão conversando, jogando, brincando, correndo, pulando, desenhando, dançando e cantando juntos, e estão sendo ouvidas. “As famílias estão desenvolvendo uma intimidade nunca antes vista”, comenta. E completa: “Se os adultos conseguirem segurar a sua ansiedade, para as crianças esse momento pode ser muito bom, porque a base de seu desenvolvimento é o vínculo com os pais. E essa construção de memórias afetivas pode ser muito fortalecedora de sua identidade, da psique e da alma delas”.

Memórias.

Haverá mal estar emocional, claro, mas quando sairmos lá na frente, as crianças terão lembranças fortes desse período, acredita Daniel Becker, dono de um perfil no Instagram seguido por mais de 120 mil pessoas. “Lembranças boas, que são essas memórias afetivas, e ruins. Vão lembrar de terem superado momentos difíceis, de quando os pais deram uma pirada, gritaram, ficaram irritados, choraram ou se sentiram fracos, de quando viram os pais vulneráveis na sua vulnerabilidade mais humana, e isso é bom.”

Bom, ele emenda, contanto que isso seja compensado por esse lado de conviver de forma alegre, feliz e brincante com seus pais. Se só houver memória traumática, isso vai gerar estresse tóxico e prejudicar o desenvolvimento da criança. “Se forem algumas memórias de momentos ruins entremeadas com a predominância de bons momentos, essas memórias ruins também acabam fortalecendo a criança porque ela se sente como alguém que superou junto com a sua família um momento difícil para toda a humanidade.”

 (Texto: Reprodução do Jornal O Estado de São Paulo)

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