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Polaridades e Dinâmica Psíquica em Jung

 

Carl Gustav Jung, sintonizado com o espírito de sua época, questionava a compreensão do mundo como uma possibilidade absoluta, conforme a ilusão difundida pelo cientificismo positivista. Só seria possível compreender ou tentar compreendê-lo desde que o observador fosse incluindo dentro do cenário. Para evitar uma visão unilateral da realidade, comandada pela razão consciente, havia que se integrar tanto um polo objetivo da realidade, quanto um polo subjetivo expresso pela linguagem mítica, pelos sonhos, pela fantasia, pela imaginação.

O primeiro polo Jung associava o que ele denominava de “pensamento dirigido”, prático, objetivo e direcionado. O segundo era associado ao pensamento associativo e analógico, mais orgânico, não-linear, não lógico e indefinido. Esta segunda dimensão tem relevância determinante na construção da argumentação junguiana para explicar o comportamento humano. Conteúdos aparentemente extravagantes, irracionais e fantasiosos adquirem sentido numa teia de significados interligados e manifestam-se por meio de simbologias. Esta é a linguagem do inconsciente, cujas fantasias, carregam a energia psíquica que se manifesta conscientemente. Não se trata, para Jung, de ignorar a força do intelecto racional, mas de equilibrar as polarizações.  A ideia de polarizações que se integram aparece também na investigação sobre a filosofia oriental. O princípio masculino, yang, se relaciona com a dimensão espiritual e os estados afetivos e intelectuais. O princípio yin, segundo Jung, “... o feminino, obscuro, telúrico (yin), com sua emocionalidade e instintividade, mergulha nas profundezas do tempo e nas raízes do continuum corporal” (JUNG e WILHELM, 1988, p. 26).

O modelo junguiano de psique segue a noção destas polaridades em constante evolução, em tensão criativa: o ego, centro da consciência, o, inconsciente individual, terreno dos complexos e o inconsciente coletivo, povoado por energias arquetípicas. Por isso todo fenômeno psíquico tem uma ambivalência intrínseca entre consciente e inconsciente, matéria (ou natureza) e espírito. O pensamento junguiano é permeado por paradoxos, por lógicas comparativas e pragmáticas. 

O ego é dinâmico, é possuído ou assimilado por aspectos inconscientes da personalidade, afetos e emoções, organizados em complexos. Cabe ao ego a capacidade de adaptação ao mundo exterior, criando diferentes “personas”. O termo foi utilizado por Jung, significando “máscara”, para nominar o processo de compromisso do indivíduo com a sociedade acerca das expectativas e aparências que lhe são exigidas em cada ambiente e papel desempenhado externamente, sempre se referindo a uma imagem ideal, reprimindo conteúdos incompatíveis para a “sombra”. A “persona” como toda designação junguiana, é um conceito ambivalente, ela afirma uma identidade que não se identifica plenamente com o ego, pois máscara e esconde.   A energia psíquica dos complexos pode ser tão forte a ponto de dominá-lo, então surge uma psicose ou quando há uma perda de identidade, em possessão. Mas o ego pode se defender de conteúdos inconscientes, por meio de “mecanismos de defesa”, por exemplo, reprimindo essas imagens, emoções, afetos, simbologias naquilo que Jung chamou de sombra ou aspectos sombrios da personalidade. A dimensão sombria da personalidade representa o lado primitivo e obscuro, características desagradáveis que o ego não aceita ou reconhece, mas também qualidades, potenciais, aspectos numinosos que não puderam se desenvolver. A energia psíquica contida na dimensão sombria da personalidade a coloca como uma função compensatória, como contrapeso, compensando a tendência à unilateralização do ego.   O raciocínio junguiano é muito intuitivo e experimental. Ao identificar o processo de adaptação da consciência e do ego às demandas da vida interior e exterior, Jung explica o papel das diferentes funções psicológicas e faz isso empiricamente. A capacidade de simbolização é fundamental para lidar com as solicitações e as frustrações do mundo real. Pensamento e sentimento, articulando a racionalidade, intuição e sensação, articulando o não-racional seguem a lógica do paradoxo e se combinam com diferentes atitudes da consciência: introvertida e extrovertida. Elas também funcionando em combinações, todo extrovertido é um introvertido em potencial, e vice-versa, no jogo dinâmico das compensações.  

Seguindo no modelo junguiano de psique, aparece a experiência do inconsciente. Além do inconsciente individual, já identificado por Freud, Jung concebe a existência de um nível mais profundo de um repertório de padrões comportamentais, o inconsciente coletivo. Lugar de memórias profundas, instintos reprimidos, imagens e símbolos, o inconsciente está sempre ativo, com fonte própria de energia psíquica, que quando ganha autonomia da consciência, se torna psicose, a doença mental. Na energia psíquica do inconsciente continua presente a noção de paradoxo, típica da intuição dialética de Jung. Assim como a energia física, a psíquica pode ter múltiplas manifestações: sexual, emocional, agressividade, afetividade etc. Pode manifestar-se em qualquer situação ou momento, em ações ou atitudes específicas. A energia psíquica, assim como na termodinâmica, está em fluxo constante, de um sistema para outro, do inconsciente para o consciente e vice-versa. É o princípio da equivalência cujas variações são percebidas pela função sentimento. Quando o fluxo de energia é desviado ou interrompido surgem os sintomas e os desequilíbrios, simbolicamente na mente ou fisicamente, no corpo material. Seguindo a termodinâmica, a psique busca o equilíbrio dinâmico da energia numa espécie de autorregulação que se contrapõe à qualquer tentativa de unilateralização da consciência. É o princípio da compensação. Quanto mais unilateral a atitude do ego em relação a um conteúdo inconsciente, maior será a força compensatória no sentido oposto. Os sonhos, para Jung, teriam, entre diversas ampliações possíveis, o papel compensatório do inconsciente em relação a uma atitude neurótica do consciente. A compensação explica a busca do equilíbrio entre o polo natural do indivíduo (instintivo) e o polo espiritual. O fluxo da energia no sentido adaptativo direcionado pela consciência é um movimento de progressão, enquanto a regressão da energia ocorre no conflito entre a identidade e individualidade, momento em que conteúdos inconscientes podem ser ativados. Jung usa o exemplo da água represada de uma cascata, a tensão gerada obriga a energia a encontrar outros caminhos e buscar (no inconsciente) alternativas (imaginação, fantasias, simbolizações etc.) para integrar as forças opostas. Esse movimento de progressão/bloqueios/regressão/retorno-ao-fluir da energia psíquica está na base da ideia junguiana do desenvolvimento da personalidade.

 

Referências:

 

JUNG, C.G.  e  WILHELM, R.  O Segredo da Flor de Ouro, Editora Vozes, 1988.

* Este artigo faz parte da monografia de conclusão do curso de Especialização em Psicologia Junguiana do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, IJEP.

 

Texto: Jackson De Toni - Especialista em Psicologia Junguiana.

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