A histeria coletiva é um fenômeno social recorrente ao longo da história, manifestando-se em diferentes contextos culturais e políticos sob a forma de contágio psíquico, mobilização afetiva e produção de comportamentos coletivos irracionais. A história das sociedades humanas é atravessada por episódios em que o comportamento coletivo parece escapar aos parâmetros da racionalidade individual, assumindo formas de excitação, medo ou violência compartilhada. Tais fenômenos, frequentemente descritos como histeria coletiva, constituem momentos privilegiados para a análise das patologias sociais, isto é, das formas pelas quais o sofrimento psíquico se organiza e se expressa no nível coletivo. A histeria coletiva, desta maneira, não deve ser entendida como uma anomalia episódica, mas como uma manifestação estrutural das condições simbólicas, sociais e afetivas que organizam a vida contemporânea.

Historicamente, o conceito remonta à tradição médica da Antiguidade, inicialmente associado a explicações fisiológicas, como a teoria do “útero errante”, a visão original e equivocada que dominava a medicina do século XIX. Com o surgimento da psicopatologia moderna e, sobretudo, com a psicanálise, a histeria passa a ser compreendida como uma formação psíquica complexa, na qual conflitos inconscientes são convertidos em sintomas corporais ou comportamentais. Essa mudança de paradigma desloca a etiologia da histeria do campo orgânico para o simbólico e o imaginário, permitindo compreendê-la como uma linguagem do inconsciente individual. O sintoma histérico deixa de ser visto como um fenômeno sem sentido e passa a ser interpretado como uma forma de expressão de desejos reprimidos e conflitos psíquicos não elaborados.

A transposição desse modelo para o plano coletivo implica reconhecer que os mecanismos psíquicos individuais podem operar em escala ampliada. A histeria coletiva emerge, assim, como um fenômeno em que emoções, crenças e comportamentos se disseminam rapidamente entre indivíduos, produzindo estados de excitação generalizada. Nesse contexto, a massa funciona como um espaço de amplificação psíquica, no qual conteúdos inconscientes são compartilhados e intensificados. A massa em movimento redefine e captura as subjetividades, captura a capacidade de simbolização individual e ao mesmo tempo cria uma redoma protetora.

A histeria coletiva pode ser compreendida como uma forma de contágio psíquico, sustentada por mecanismos de identificação, sugestão e imitação. Esses processos atravessam os indivíduos minando sua autonomia crítica, favorecendo a adesão a narrativas coletivas que frequentemente operam por simplificação e polarização. Do ponto de vista psicanalítico, a inserção do sujeito na massa implica uma regressão a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, nas quais predominam afetos intensos e pouco elaborados. A dissolução parcial das fronteiras do ego permite que conteúdos inconscientes sejam projetados e compartilhados, criando uma espécie de “campo afetivo comum”.

Essa dinâmica evidencia que o sujeito não é plenamente autônomo, sendo constantemente atravessado por influências sociais, culturais, políticas e religiosas inconscientes. A experiência coletiva, portanto, não apenas reflete estados psíquicos individuais, mas também os produz e os reorganiza, configurando novas formas de subjetividade. Na contemporaneidade, a histeria coletiva assume novas configurações, especialmente em função da expansão dos meios de comunicação e das redes sociais digitais. A circulação acelerada de informações, frequentemente desprovida de verificação crítica, favorece a emergência de pânicos morais, teorias conspirativas e movimentos de mobilização afetiva em larga escala.

Esse cenário pode ser descrito como uma intensificação do contágio psíquico, mediado por tecnologias que amplificam a visibilidade e a velocidade das interações sociais. O espaço digital funciona como um ambiente propício à formação de bolhas afetivas e “câmaras de eco”, nas quais discursos homogêneos são reforçados e divergências são excluídas ou demonizadas. Criando uma falsa sensação de consenso e isolando os indivíduos de visões opostas. Além disso, a crise das instituições tradicionais e a fragmentação das referências simbólicas contribuem para a produção de um sujeito mais vulnerável à instabilidade emocional e à busca por pertencimento. A histeria coletiva, nesse contexto, pode ser entendida como uma tentativa de restaurar laços sociais por meio da partilha de afetos intensos, ainda que esses afetos sejam (auto)destrutivos. Na contemporaneidade, esse processo se manifesta em diferentes formas, incluindo discursos de ódio, cancelamentos e polarizações extremas que beiram à seitas delirantes (redpill, qanon, supremacistas, etc.). A violência simbólica torna-se, assim, um elemento central das dinâmicas políticas coletivas, frequentemente precedendo ou acompanhando formas de violência material

A figura do “inimigo absoluto” permanece eficaz porque ela opera menos no plano jurídico-institucional e mais no plano simbólico e afetivo. Mesmo em Estados laicos, a cultura política não é neutra: ela herda matrizes religiosas, morais e míticas profundamente enraizadas. A simplificação da complexidade social: em contextos de crise (econômica, moral, identitária), a ideia de um “inimigo absoluto” oferece uma explicação simples para problemas estruturais complexos. Ele personaliza o mal e desloca frustrações difusas para um alvo identificável. A religião funciona como um repertório simbólico de fácil reconhecimento, sobretudo para camadas populares; a produção de coesão identitária. Ao definir um “outro” como ameaça existencial, constrói-se um “nós” moralmente puro, precisamente aqui surge o fundamento para uma dimensão religiosa da histeria coletiva. Isso reforça pertencimento, lealdade e disciplina política, especialmente em grupos que se sentem culturalmente ameaçados. Há uma espécie de fusão entre uma identidade moral religiosa e uma identidade política; e finalmente a suspensão do dissenso democrático: se o outro é visto como inimigo do bem, da nação ou de Deus, o conflito político deixa de ser legítimo. O adversário não é alguém com quem se debate, mas alguém a ser derrotado, silenciado ou eliminado simbolicamente. Há uma confessionalização do espaço público que interdita sua natureza comum e coletiva.

Dessa forma, torna-se fundamental desenvolver abordagens interdisciplinares que articulem psicanálise, psicologia social e ciências sociais, capazes de compreender e enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Mais do que um fenômeno marginal, as patologias do social revelam aspectos centrais da condição humana, convidando à reflexão sobre os limites da racionalidade e as forças inconscientes que estruturam a vida social. O “ódio religioso” na política não é um subproduto acidental, mas uma estratégia deliberada de poder que visa reconfigurar o imaginário social. Ao transformar o adversário em um inimigo moral absoluto, rompe-se o pilar fundamental da democracia: o reconhecimento da legitimidade da existência do outro no espaço público.

A demonização na política contemporânea não é um resíduo arcaico, mas uma estratégia moderna de poder, potencializada por crises sociais, pelo medo do desconhecido, por linguagens religiosas moralizantes e pelas dinâmicas das redes digitais. Ao transformar a política em uma luta entre o bem e o mal, ela mobiliza afetos poderosos — mas o faz ao custo da democracia, do pluralismo e da possibilidade da convivência civilizada.


Referências:

FERREIRA, P. Coletividade e histeria. Rev. Polis e Psique, v. 8, n. 2, p. 67-92, 2018.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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MURRAY, Douglas. A loucura das massas: gênero, raça e identidade. Rio de Janeiro: Editora Record, [s.d.].
MYERS, David G. Psicologia social. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SAFATLE, V., SILVA JUNIOR, N. e DUNKER, C. (org). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Editora Autêntica. 2021.

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Jackson De Toni
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